segunda-feira, 31 de agosto de 2009

QUEM TEM MEDO DE FANTASMA ???

1996, Ilha de Itacuruçá, equipe de leishmaniose de Nova Iguaçu, atividade de visita a residências e desinzetização.

Durante o dia, muita ralação. À noite, lazer nos poucos botecos da ilha com um metido a pagodeiro com seu banjo, chamado de doutor berinjela, pelo  formato da sua cabeça.
            O retorno para a escola onde estávamos alojados, era sempre as altas horas, e todos bêbados e de língua mole. No dia seguinte, pedreira para acordar as 7:00h.
Nas conversas com os moradores da ilha, questionávamos porque não havia luz elétrica. Era um breu total que dava medo. Alguns moradores diziam já ter visto vultos na escuridão, e algumas assombrações, o que gerava muitas gargalhadas dos sucaneiros céticos e debochados.
Uns diziam:
- Se eu ver uma assombração vou convidar ela pro pagode.
Outros diziam que isso era coisa das nossas avós.
A ida para o boteco, todas as noites, era iluminada por um único lampião a gás da equipe. Se não fosse isso, acho que nunca acharíamos o caminho de volta.☺️☺️
No último dia de atividades, dei ordem para que ninguém fosse ao boteco, e prontamente eles atenderam indo todos dormir às 10:00 h. Fui à sala ao lado onde dormiam para confirmar, e o que achei foram mochilas e travesseiros disfarçados sob cobertores. Achei estranhos, todos estarem com as cabeças cobertas. Foi ai então que me veio uma idéia de vingança que ficaria para história. Eu viraria o tão temido fantasma da ilha.
Chamei o guarda bigodinho, e com um  balde cheio de latas velhas, e um lençol branco, saímos para a vingança às 00:00h, e ficamos em um entroncamento na estrada, nas trevas,  nos mijando de medo também. Tinha morcego, barulho na mata, pássaros noturnos. Não nos atrevíamos a descolar um do outro, com medo de nos perder na escuridão. Mas a vontade de assustá-los era maior.
Após 3 horas de espera, e muito medo, eis que surge o primeiro grupo.  O guarda leite e o Rabuja com o lampião dando cobertura ao grupo de traz. No grupo, vinham trazendo um bebum nas costas, chamado babalu, que quando bebia parecia se transformar em uma boneca. No caminho, havia um córrego, com uma pinguela onde só passava um.
Primeiro ato da maldade:
            Um berro assustador, vindo de um lençol branco, acompanhado de latas batendo, no breu das trevas da noite. Huuuuu, Brack, brack. Haaaaaaaaa!
Um grito de horror.  Haaaaaaaaa! E lá se foi o lampião junto com seu condutor desesperado:
-Corre!! corre!! um fantasma, corre!!! Gritava o guarda leite a quase 100km por hora, deixando todos na escuridão.
Os que vinham atrás, nem ouviram os gritos de horror. Só viram o lampião caindo fora. Achavam que era sacanagem para deixá-los no escuro.
-Volta aqui oh safado! Filho de rapariga ! Reclamou um do grupo.

 Segundo ato da maldade: 
Quando chegaram ao entroncamento onde estávamos, bradamos com todo espírito de sexta feira 13:
HUUUUUUUUUUUU! HÁ, HÁ HÁ HÁ , BRUM! CRAFF!Mais berros, mais badaladas de latas e pronto. Pernas, pra que te quero?
Esqueceram do bebum, e da ponte do rio que cai e, aos gritos de desesperos diziam:
 -Saaaaai ! saaaaai ! E... cabrum no riacho.
Lá se foi o Sansão da turma, metido a valentão, que deixou a marca da bunda na lama, que se viu no dia seguinte.
Tropeços, gritos de horror, e tombos dos corajosos sucaneiros,  quase me matam de tanto prender o riso no meu esconderijo.
Já bem distante alguém lembrou.
- Cadê o babalu? Em referencia ao bebum.
-Caiu no córrego e vai se afogar! Respondeu o guardinha pigmeu de 1 metro de altura.
Vamos voltar pra socorrer! Falou um misericordioso.
Alguém contesta:
-Ta maluco! E aquela coisa que apareceu lá atrás? Não volto nem morto! Que morra o infeliz!
O corajoso pagodeiro beringela, tira as calças e fica só de cuecas zorba. E num gesto de carinho com o companheiro bebum, volta,  o pega pelos pés, e o arrasta pela estrada afora, esfolando seu coro pelo chão.
Vamos desgraçado! Vamos!
O bebum, fora de si reclama:
Ai! Ai! Eu quero morreeeeeeer, eu quero morreeeeeeer, aaaaaai....
 O valentão, que deixou o carimbo da bunda no córrego, também cheio de cana, e com raiva do bebum que não se levantava, pega um bambu e.... slap!! slap!! slap!! Partiu ao meio nas costas do bebum, que já de pé reclamava do jeito meigo que foi socorrido e queria voltar para o boteco.
O Tião tenta se redimir:
 Só te bati pra ver se este espírito ruim sai do teu corpo .
Saldo da brincadeira:
Uma cara ralada (do bebum),um bambu partido  e um monte de machos todos sujos de lama, porque ninguém achou o caminho da pinguela no escuro.
 Muitas gargalhadas junto com pavor, e dúvidas sobre o que tinha acontecido. Ninguém se atrevia a dizer que não acreditava em fantasma. Isso até descobrirem que fui eu o autor do crime. E ai....... Pernas pra que te quero ?
- Corre bigodinho ! corre! se eles nos pegam nos matam

Um comentário:

Unknown disse...

Muito legal, bons tempos que não voltam mais !!!!
Tânia (Infecção Hospitalar)