1993 RJ. Atividade: desinsetização para combate ao Aedes Aegipy.
A rotina dos trabalhos em certas áreas, cria vínculos que as vezes se confundem com amizade , e cria situações inesperadas, por parte de alguns moradores e sucaneiros imprudentes, que se acham conhecidos de todos no local. Não é bem assim que funciona.
_ Vamos fazer hoje o quarteirão 45. Determinou o guarda chefe a toda a equipe.
_ Ta de Graça chefe ? São quase 2 km até lá! .
_ Nosso trabalho é no campo, sucaneiros ! Respondeu o combatente de mosquitos.
Uma dupla parte para o local, conversando sobre a área de trabalho:
_ Nós já estamos aqui nesta área a quase dois anos não é ? Perguntou um simpático sucaneiro, baixinho, cabeça de abóbora, de bigode exagerado, muito característico, que a todos cumprimentava.
_ Já somos bem conhecidos ! Isso é bom porque quase não tem recusa. Respondeu o amigo.
Um morador chama:
_E ai garotos! Querem tomar um cafezinho? Entra aqui!
Um gole era certo em qualquer casa.
Ao chegarem na área começaram as visitas.
O amigo do toco de amarrar jegue, o alerta:
_ Companheiro! Não abusa da confiança dos moradores não tá!
_ Entra sempre acompanhado, pra não dar problema!
_ Deixa de ser medroso! Aqui nós já é de casa!
O nanico, chega numa casa já conhecida e nem precisa bater palmas:
_ Dá licença! To entrando heim! Bom dia ! Bom dia a todos!
A moradora, que já o conhecia, manda entrar e ficar á vontade enquanto ela conversava com uma vizinha no portão.
_ Vou furar umas latinhas aqui no quintal, e já faço a parte de dentro ta bom?
_ A casa é sua baixinho! Fica à vontade! Respondeu a moradora. Sorridente, como se ele fosse da família.
Inseticida pra lá. Inseticida pra cá. Fura latinha, olha o prato de xaxim, colhe uns focos, borrifa aqui, borrifa ali, e finalmente o filhote de anão se prepara para entrar na casa:
_Vou olhar a parte interna ta legal ?
Pobre sucaneiro... Se ele ouvisse a profecia do seu amigo que pediu pra tomar cuidado com o excesso de confiança...
_Vou começar pela cozinha! Falou consigo mesmo.
_ Vou pegar um cafezinho aqui valeu? Avisou o abusado já com a garrafa térmica na mão.
_Huuum, que isso aqui? Pãozinho? Vou comer um também!
Sentou à mesa como se fosse sua. Se ele soubesse o que lhe aguardava, sairia dali correndo e não voltava mais.
Após se banquetear, o desavisado parte para o quarto da moradora, e com seu saquinho de larvicida na mão, entra direto no banheiro para tratar o ralo, e assinar o boletim de visita 201 que ficava sempre colado na porta. Ao entrar, nem se conta que na cama tinha uma jamanta dormindo de ressaca do dia anterior. Era o marido da moradora, que nunca tinha visto o sucaneiro na vida.
_ Que banheiro maneiro! vou lavar as mãos e o rosto! Curtiu o abusado.
Ao ouvir o barulho, o jamanta acorda babando feito um cão buldog, e pergunta com uma voz que mais parecia um trovão:
_Quem ta ai no banheiro?
Um calafrio tomou conta do sucaneiro, que não abriu a boca, só refletiu e pensou: _ Caracas! Que merda!
E merda, foi o que o cara literalmente quase fez, quando olhou pela greta da porta e se deparou com aquela mistura de Mike Taison com Maguila da familia greice, de sunga, vindo em sua direção. Era um lutador de jiu-jitsu, que havia perdido uma luta no dia anterior, estava doido pra descontar em alguem seu prejuizo.
Foi à conta certa. Abriu a porta do banheiro e lá estava, encolhidinho num cantinho, aquela coisa meiga de bigodinho, com as mãozinhas na boca. Parecia até o gato de botas do filme do Shurek. _QUE POR... Piii É ESSA DENTRO DO MEU BANHEIRO MULHER? . Rosnou o lutador.
No portão, a mulher do cara que estava conversando com a vizinha, põe a mão na cabeça e desesperada sai correndo:
_ Meu Deus! O brucutu vai matar o sucaneiro! Esqueci que ele estava em casa!
No banheiro, o baixinho já de joelhos com cara de mocorongo tenta conversar:
_ Pelo amor de Deus moço! Eu posso explicar.
_ Explicar que você ta dentro do meu quarto esperando a minha mulher? Ricardinho safado! Vou te partir ao meio canalha!
Uma joelhada tipo muay thai estancou no nariz do sucaneiro e o melado desceu.
O cara levantou o sucaneiro anão, até a altura da porta, e bateu nela com ele ate ficar molinho feito marionete com as perninhas balançando .
Aos Socos e pontapés, o sucaneiro anão saiu correndo, deixando para traz todo seu material. Correu sem rumo, cambaleando até o portão , quando encontrou seu amigo que o avisara.
_Que isso cara?! Que te aconteceu? Perguntou assustado o amigo ao ver aquele trapo humano.
Sem fôlego, e com a mãozinha com pelo menos três dedos quebrados, cheio de sangue na cara, olho arregalado, nada conseguiu responder. Só tremia.
A primeira coisa que disse foi:
_Aiiii! Aiii! To todo quebrado. Fui massacrado. Pensei que ia morrer! O cara nem deixou eu me explicar! Pensou que eu fosse o ricardão e me baixou a porrada. Cabisbaixo e gemendo de dor, o humilhado sucaneiro volta a casa da moradora para buscar seu material, confiando na turma do deixa disso, que estava no local para acalmar a fera.
Ele entra de novo na casa, e aguarda desculpas do lutador, e para sua surpresa...
_Tu não ta satisfeito não safado? Quer mais? Falou o lutador, correndo em direção ao fragil sucaneiro. Mais socos e pontapés, acompanhados de uma bombada na cabeça. E o que era pra ser conciliação, virou pancadaria de novo. Um fim trágico! Mas também cômico. Sucaneiro sofre viu? |
Um comentário:
Valeu colega. Gostei da história,
tem tudo a ver com nós, com nosso trabalho.
Um abraço.
Postar um comentário